Pobres sempre os tereis entre vós

Faz dois anos que o Papa Francisco criou o DIA MUNDIAL DOS POBRES. Deve ser celebrado todos os anos na Igreja, no Domingo que precede o final do calendário litúrgico que se dá quase sempre no final de novembro. A decisão é justa, pois vivemos num mundo em que as desigualdades sociais clamam por solução.

Certamente há diferenças inofensivas entre nós. Raças diferentes, cores diferentes, línguas diferentes, origens diferentes, opções diferentes, humores diferentes, dons diferentes e tantas outras dessemelhanças formam o poliedro natural da raça humana. Buscar a igualdade em tudo é tarefa inútil e desnecessária. Que mal há em nascerem diferentes as etnias humanas?

Porém, quando se entra no campo social as coisas se complicam, pois comparecem os critérios éticos e morais, onde a questão não é apenas a realidade das origens e condições físicas, mas a dignidade humana e as opções individuais egotistas.

Na verdade, as diferenças naturais não colocam em risco os direitos de cada um. Mas as criadas pelas pessoas humanas, quando fruto do pecado, são danosas; o pecado gera seus descendentes injustos. A ganância, a luxúria, a inveja e todos os vícios capitais são filhos do grande pecado que é o egoísmo, condição oposta ao amor ao próximo. Surgem então as diferenças negativas. Uma delas é a questão da gritante distância entre os que detêm riquezas fabulosas e pobres que não têm o que comer.

Aqui é preciso prevenir: nem toda riqueza é fruto do pecado e nem toda pobreza é resultado das injustiças sociais. A propriedade adquirida por meios honestos, lícitos e procedente do esforço de gente que, pelo trabalho, progride, é justa, garante a Doutrina Social da Igreja. Mas é pecado ser rico quando o acúmulo de bens materiais nasce da corrupção, da ganância, do ter pelo ter, do grande engano de colocar o lucro pessoal ou do grupo ou do partido político acima das condições humanas de vida a que todos têm direitos iguais. Ninguém foi criado para morrer de fome ou para viver doente sem condições de tratamento. Ninguém foi criado para sofrer sem moradia, escola, segurança, trabalho. Essas diferenças devem ser vencidas, pois não são naturais e nem benéficas. Mas como? Com que meio?

Eis a crucialidade da questão. Quando Jesus afirma que “pobres sempre os tereis entre vós“, certamente não se referiu à inércia diante da injustiça social que faz alguns terem total condições de acesso aos mencionados meios e outros padecerem condições inóspitas com desnecessários e cruéis sacrifícios.

Onde está a solução? Certamente a primeira responsabilidade cabe ao Estado, que tem o dever de encontrar meios para garantir a todos vida digna e acesso igual aos meios para isso. Mas também cabe à opção de cada pessoa.

A palavra de Cristo sobre a existência contínua de pobres entre nós pode significar que será inevitável haver alguma diferença entre a raça humana, não fruto do pecado social, mas da condição natural, pois Deus proporcionou dons diferentes para cada um de seus filhos. Um terá mais aptidão para certos trabalhos, outra mais facilidade natural para solução de problemas, não causando isso rivalidade e opressão. Esta distinção se esclarece quando pensamos: nem todos são músicos, alguns são gênios na arte das artes, mas isso não humilha e nem causa problemas para quem não tem estes dons. Pelo contrário, ao ouvir peças de Bach, Vivaldi, Divòrack, Vila Lobos, Vinicius ou Pixinguinha, ninguém se irrita por não ter seus carismas geniais, mas agradece por eles terem existido. A minha pobreza de não ser como eles não é má.

No campo dos bens materiais, porém, as coisas não são tão simples. Se por um lado sempre haverá certas diferenças não pecaminosas na posse de bens materiais, a palavra de Cristo vai a campo mais profundo. Padre Kongings-sj, admirável no conhecimento bíblico e na exegese dos textos, explica que o termo usado por Jesus não nos leva ao conformismo pecaminoso, mas indica que o melhor é que não houvesse pobreza para ninguém, mas em havendo, a pessoa humana não seja injusta e não deixe de esforçar-se para que as diferenças diminuam e se chegue a um ponto onde não falte nada a ninguém para viver com dignidade. De fato, após a ressurreição de Cristo, sua ascensão e sua ausência física, os “cristãos tinham tudo em comum, e entre eles não havia indigentes” (cf Atos dos Apóstolos 4, 34-36).

Na abertura da Conferência de Puebla, em 1979, o Papa São João Paulo II afirmou: “Sob toda propriedade particular, pesa uma hipoteca social”. Isso significa que a Igreja não condena a propriedade privada, mas ensina que todo prioritário tem que ter a consciência de que o que temos não pertence inteiramente a nós, mas também àqueles que nada tem ou que tenham o insuficiente para viver.

Eis aí tarefa para todos na família, na escola ou em qualquer outro lugar: educar para a solidariedade, o altruísmo, a partilha e amor a Deus e ao próximo.

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