Crise política afeta economia de JF

Crise política afeta economia de JF

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está no centro das investigações da Operação Lava Jato. Sua condução coercitiva, no dia 4, e a quebra do seu sigilo telefônico na quarta-feira, 16, aqueceram ainda mais a disputa entre o atual governo e a oposição. No dia 13 as ruas foram tomadas por atos que pediam o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a prisão de Lula. Na última sexta-feira, 18, a mobilização foi a favor do governo.


A instabilidade política no país começou em 2013. Com início do segundo mandato de Dilma, o panorama político ficou ainda mais acirrado. “Nos últimos dois anos não conseguimos ter as instituições políticas trabalhando da forma que deveriam. A oposição teve como proposta o tempo todo obstruir a atuação do governo e o resultado eleitoral. Com isso, estamos vivendo uma crise política intensa”, explica a doutora em Ciência Política e professora do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Christiane Jalles.


De acordo com a cientista política, a disputa entre oposição e situação é um dos principais fatores que influenciam a crise política. “O Governo Federal está o tempo todo tentando retirar as barreiras colocadas pela oposição e não consegue, com isso, não está governando. Temos claramente um quadro de paralisia decisória onde nada consegue ser decidido”, ressalta.


Na semana passada, o ex-presidente Lula foi nomeado, pela presidente, ministro da Casa Civil. O ato foi considerado pela oposição como uma forma de privilegiar o ex-parlamentar em seu possível julgamento por envolvimento na Operação Lava Jato. Liminares foram executas, desde a quinta-feira, 17, a fim de anular a decisão de Dilma.


Caso continue no cargo, ele será julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Com a possível suspensão da nomeação, Lula perderia o foro privilegiado. “Se o ex-presidente for julgado em primeira instância, teria muito mais chances de possíveis recursos, pois o STF é a última instância jurídica para se pedir um tipo de recurso”, esclarece Christiane.


A quebra de sigilo telefônico do ex-presidente e de pessoas próximas a ele aqueceram ainda mais a disputa política. A decisão da divulgação, tomada pelo juiz Sérgio Moro, dividiu opiniões. Segundo a cientista política, a ação eleva a crise política a um novo patamar. “O Sérgio Moro claramente ultrapassou uma linha importantíssima que é a de defesa do Estado Democrático de Direito. Agora não é só uma crise política ligada ao governo e a oposição, mas sim um momento onde começamos a ultrapassar para uma crise que pode destruir a democracia”, afirma.

Manifestações


Na sexta-feira, 18, juiz-foranos pró-governo se reuniram na Praça da Estação, Centro, para manifestar a favor da democracia, da presidente Dilma e do ex-presidente Lula. O ato organizado pela Frente Brasil Popular contou com a participação de integrantes de sindicatos e partidos políticos de esquerda, como PT e PCdoB, além de manifestantes apartidários.


De acordo com a Integrante do Coletivo Maria Maria – Marcha Mundial das Mulheres, Laiz Perrut, a proposta do ato foi defender a democracia. “Nós vemos todas essas coisas que estão acontecendo, como o Judiciário sendo idolatrado e interferindo diretamente no Poder Executivo, com muita gravidade. A nossa proposta é a defesa da democracia, para não termos um retrocesso como tivemos na época da ditadura militar”, expõe Laiz.


“Entendemos que se um governo democraticamente eleito e que não tem nenhuma acusação, prova de corrupção ou qualquer outro desvio é tirado do poder, abrimos um estado de exceção muito grande e um precedente para outras coisas que não sabemos para onde irá”, relata a integrante do coletivo Maria Maria. Nos próximos dias, segundo Laiz, uma caravana sairá de Juiz de Fora para Brasília. A viagem está prevista para o dia 31 de março. “É uma mobilização nacional com as mesmas pautas de sexta-feira, em favor da democracia”.


A oposição também foi às ruas na última semana. O ato foi liderado pelo Movimento Muda Brasil, um movimento apartidário, que tem Juiz de Fora como sede nacional. Os manifestantes pediam a cassação do mandando da presidente Dilma e a condenação de Lula, suspeito de envolvimento em um esquema de corrupção. “Nós atuamos não somente nas manifestações, somos um movimento devidamente regularizado e podemos ajuizar ações, cobrar do poder público qualquer omissão e ato ilegal feito por eles”, explica o presidente Nacional do Movimento Muda Brasil, Nelson Flávio Firmino.


O Muda Brasil é um dos responsáveis pelas ações de tentativa de impeachment de Dilma. O movimento elaborou um dos 34 pedidos de cassação do mandato da presidente. “Estamos agora preparando novos pedidos diante desse contexto de nomeação do Lula ao Ministério da Casa Civil. Este é um ato totalmente incondizente e passível de anulação, porque visa interesses próprios e pessoais para que ele adquira um foro privilegiado e fique livre da competência da Operação Lava Jato”, defende Firmino.


O processo de impeachment já foi aceito pela Câmara e o Legislativo começa a debater acerca do assunto. “Neste momento, os dados que eu conheço, não configuram crime [por parte da Dilma] para que possa gerar o afastamento da presidente, mas sabemos que o processo de impeachment não é uma questão jurídica, sim política. Por isso, a movimentação nas ruas ajudam a pressionar o clima de opinião dentro do Legislativo”, explica Christiane Jalles.

Comércio sofre com crise política


Segundo a cientista política, Christiane Jalles, não há crise política sem uma crise econômica. “Desde o final 2013, o movimento do comércio vem em queda, nesse período tínhamos um problema econômico no país, porém, no final de 2014, quando muitas empresas passavam por dificuldades, agravou-se a crise política e passamos a conviver com as duas”, relata o presidente do Sindicato do Comércio de Juiz de Fora, Emerson Beloti.


Com isso, o comércio tem sido duramente afetado. “Em 2016 estamos com problemas de contratação, também existe um receio do empresário em comprar mercadorias e não conseguir vender, e isso tudo causa instabilidade. Por isso, nós torcemos que uma solução rápida política seja tomada, porque o país precisa voltar a crescer economicamente”, conta Beloti.


Os empresários da cidade estão sendo estimulados a buscarem alternativas para contornar os problemas políticos e, principalmente, econômicos. “Estamos em uma situação onde precisamos resolver a crise. O Sindicomércio desenvolveu, no final do ano passado, um aplicativo coletivo como uma forma de alavancar as vendas no comércio que vem perdendo as vendas, inclusive, para empresas da internet”, destaca.

Pelo país


Assim como Juiz de Fora, diversas cidades do país registraram atos a favor do governo. Em São Paulo, manifestantes se reuniram sexta-feira, 18, na Avenida Paulista, em frente ao Museu de Arte de São Paulo. Muitos estavam vestidos de vermelho, com apitos, bexigas e faixas, pedindo a defesa da democracia e também a manutenção da presidente Dilma Roussef no governo. Os manifestantes gritaram "não vai ter golpe" em diversos momentos.


O ato teve um clima descontraído e pacífico, com muitas bandeiras, bexigas e balões vermelhos, alguns com logotipos da CUT e do PT, e outros sem nenhuma imagem. Os manifestantes carregaram uma bandeira com uma imagem da presidente Dilma jovem, na época em que foi presa na época da ditadura.


Na capital federal, manifestantes a favor do governo Dilma Rousseff e contra o processo de impeachment se reuniram no Museu da República, no início da Esplanada dos Ministérios. O ato era organizado pela Frente Brasil Popular, e os manifestantes levam cartazes com frases de apoio a Dilma e ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e contra o que chamam de golpe.


No Rio de Janeiro, a manifestação contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff reuniu manifestantes na Praça XV, no Centro da cidade. Eles carregavam cartazes e defendiam a permanência da presidente. Os manifestantes também fizeram um ato de apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Ministro Lula estamos com você", dizia um dos cartazes. Também havia faixas pedindo a saída do presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha. #ForaCunha #FicaDilma, pediam os cartazes.


Em Salvador, militantes, estudantes e representantes de centrais sindicais e movimentos sociais da Bahia realizaram um ato contra o impeachment em Campo Grande, região central da cidade. Segundo a Polícia Militar, mais de 50 mil pessoas acompanharam a passeata que seguiu em direção à Praça Castro Alves. Adesivos com a frase "Não ao golpe" e máscaras satirizando o juiz Sérgio Moro (que aparece com um nariz de tucano, em referência ao PSDB) foram distribuídos entre os manifestantes que seguiram em caminhada cantando e tocando tambores.

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