Vingança

Brinca com mulher, brinca...


Quando resolvi me mudar para o litoral, convidei Florinda, minha empregada, para me acompanhar por uns tempos, até que me acomodasse à nova vida. Percebi, imediatamente, que aquele convite não lhe agradou ou que ela não acreditava muito no meu plano porque continuou mexendo o arroz, olhando para a panela, sem responder palavra alguma.


Florinda já trabalhava para mim há uns seis anos, e era meu braço direito e esquerdo nas tarefas da casa. Era aquela pessoa que sempre sabe onde está a durex, a chave do carro, meus óculos de sol espelhados, o livro que estou lendo, o telefone sem fio. Sou distraída ao extremo, e mesmo fazendo todos os exercícios mentais que me ensinam , continuo guardando a caneta na gaveta de talheres, o catálogo, no armário do banheiro, a lata de biscoitos, na geladeira.


Quando comecei a juntar as primeiras caixas para embalar as tralhas, Florinda começou a me levar a sério. E quando me viu enrolando as primeiras peças , teve certeza.Com a boa-vontade de sempre, ajoelhou-se a meu lado e começou a encaixotar a louça da casa. Com rolos de fita crepe e caneta, anotava nas etiquetas o que a caixa continha, com a mesma eficiência de uma Granero . Acessórios de Cozinha - Tomadas, Cabos e Extensões- Peças dos aparelhos eletrodomésticos - , Talheres. Eu temia pelo espelho enorme que teria que trasladar. Ele havia pertencido à minha avó e enfeitava minha sala de jantar. Ao chegar ao destino foi a primeira coisa que fui conferir, mas ele estava em plena segurança, com um enorme adesivo colado no cobertor com que o envolvi: “Cuidado, peça de grande valor afetivo’”.


Tudo pronto para viagem, Florinda chega ao serviço na antevéspera com os olhos inchados de chorar. –Deve ser porque vou embora- pensei. Perguntei o motivo, era não. Seu noivo, Crézio, resolvera lhe contar a verdade: era casado, pai de duas filhas, ela não poderia contar com ele, como pensava, para juntar os trapinhos e dividir o cafofo.


Chorou durante toda a manhã, nem ligou o rádio , que jamais desligava enquanto trabalhava. Florinda sempre foi apaixonada pelas músicas de Caymi, tendo me contado que o pai tocara violão a vida toda e com ele aprendera o repertório do artista. Costumava cantar baixinho algumas composições que conheço, mas não nesse dia. Não deu uma palavra, sempre cabisbaixa. Após o expediente, ainda inconsolável, prometeu que voltaria até que visse sair minha mudança.


À noite, o telefone toca. Era Florinda. A voz ainda denotando tristeza, queria saber se eu ainda desejava o seu serviço em Cabo Frio. – Em caso positivo, conte com a minha companhia – anunciou. E eu, surpresa e irradiante de alegria, mal pude responder. Na verdade, era tudo o que eu queria.


Então, dois dias depois, eu saía de mudança. E com a ajuda dela, a casa da praia logo tomou aspecto de lar, as plantas espalhadas pela sala, os enfeites sobre os móveis, relógios nas paredes, cortinas nos quartos.
Em menos de dois meses, ela já namorara todos os vendedores da praia, dançara em todos os forrós e pagodes da região, localizara um curso gratuito de violão, entrara para o grupo de ginástica da praia. Também comprou bicicleta, para fazer passeios ciclísticos nos feriados, e com o Zuca, um dos namorados, aprendeu a fazer cuscuz, enquanto o ajudava na carrocinha, nas folgas de domingo.


O armário do seu quarto logo ficou abarrotado de suas compras: biquínis, óculos de todas as cores, cangas,bolsas, colares, brincos, lenços – com que ela passou a amarrar os cabelos, como aprendeu com o Jair, seu outro namorado, que vende lenços e cangas.


Aos domingos e feriados, sumia. Debaixo de sol ou de chuva ia para a praia, de onde só voltava às seis da tarde, e como o dinheiro que lhe pagava multiplicava feito os peixes da Bíblia, quis saber o segredo.
-Bem, estou iniciando uma experiência como micro-empresária e até tem dado certo. Fiz uma sociedade com a irmã do Zuca e começamos a fazer cuscuz , não é que vende tudo? Neste início é apenas um contrato de gaveta, mas pretendemos montar uma barraca e enquanto uma sócia ficar no ponto, a outra percorre a praia. E estaremos introduzindo açaí, batidas e coco verde. Primeiro faremos uma pesquisa. -Sei, sei – respondi estupefata, mal acreditando em tanta evolução.


Pois certa noite, toca o telefone e alguém deseja falar com Florinda do Carmo. Pensei que era algum fornecedor. Não. Era o Crézio. Ligou para dizer a ela que tinha se separado da mulher e como não conseguia esquecê-la, queria que voltasse, alugaria para ela um cantinho, seriam felizes, daria a ela um som para ficar ouvindo os CDs de Caymmi, queria saber qual a resposta.


- Minha resposta é mesmo um verso de Caymmi – ouvi-a responder, afetada como ela só. E abrindo a voz, cantou, felicíssima, pro Crézio: “ Quem vai pra beira do mar....Ô...nunca mais quer voltar...” E meteu com força o telefone no encaixe.


-Eta, Florinda - comentei - isso é que é, realmente, dar o troco, hein?


Ela me olhou, e com uma risada que deixava ver todos os seus dentes branquinhos, respondeu, virando os olhos: - Obviamente...!!!!!

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