Amigos para sempre

Amigos para sempre

Passei a não gostar de ir a médicos, desde que resolveram atuar cada um no seu quadrado. O nefrologista não sabe – ou não quer - me dizer nada sobre a vesícula, ali, vizinha dos rins, seu ganha-pão. O cirurgião de cabeça e pescoço nem se digna a olhar para além das cervicais. Queixamos de uma dor, vão logo prenchendo milhares de páginas de pedidos de exames, sem nem mesmo apalpar a parte dolorida. Só quando voltamos cheios de pastinhas com imagens e laudos vão saber o que nós temos. Tudo mastigadinho... E descobri que também nos engambelam.


Quando eu era fumante, sofria bullying por causa do meu vício. Onde quer que fosse, era estritamente proibida de acender um cigarro. Eu tinha uma vontade enorme de deixar o tabagismo, mas só um iniciado conhece “ a dor e a delícia” de uma tragada depois de um cafezinho. Deve ser o único vício que não alegra quem o tem: impossível não pensar nos pulmões que, do tom de pêssego maduro vão se tornando da cor da ameixa preta. E, caso não pensemos, os implicantes nos lembram.


Mas tive que deixar o vício, por imposição médica: uma isquemia quis me dar cabo, tendo sido debelada ,sem sequelas. No dia de minha alta hospitalar, o médico me alertou, dedo em riste: - Agora é sua a opção pela vida ou pela morte; pare de fumar. Uma reincidência não será tão complacente com você...


Corri à procura de um especialista que me indicaram, capaz de curar os vícios mais excêntricos - lança-perfume, gás de buzina, analgésicos, xaropes, cola de sapateiro- mas para isso cobrava feito técnico em Informática. Lá me fui. Tentou me hipnotizar, sem sucesso. Resolveu receitar umas drágeas que me dariam nojo do cigarro (sic). Deu certo, não. Mês seguinte voltei ao consultório e fui sincera: eu ainda fumava. Ele gritou comigo, enraivecido pelo seu fracasso: -Fumei por trinta anos, um dia resolvi parar! Consegui, com minha força de vontade!Use a sua! Diga NÃO à sua mão, quando ela quiser alcançar mais um cigarro!


Se ele conseguiu – pensei – por quê não eu ? Sofri feito parturiente do SUS, mas larguei aquele vício...só que o cigarro nunca me largou: aparece em meu pensamento, entre um e outro gole de chope, após o café, a pimenta, o doce, quando me sinto ansiosa, quando estou escrevendo, como agora.


Meses depois, na varanda de um barzinho, avisto, aquele médico que me levou metade das economias. O malandro tragava seu cigarro, enquanto bebericava um chope. Indignada, eu me senti traída! Sem conseguir me conter, me pus à frente dele, todo envolto em fumaça. – Pelo jeito, esgotou seu estoque de força de vontade!-disparei, com ódio. - Você deveria dizer NÃO à sua mão na hora de receber o dinheiro de sua turminha viciada!


E a partir dessa noite, comecei a desacreditar de tudo o que me dizem. – Retirando essa pequena cicatriz em minha perna, ficará um sinal visível, doutor? - NÃO!!! A cicatrização sendo boa, nem se notará...( Você retira a bolinha e arranja uma queloide do tamanho de um ovo de pata.) – Precisarei tomar esse remédio durante muito tempo, doutor? – NÃO!!! Daqui a três semanas nem se lembrará que andou doente! (Cinco meses depois você ainda toma o remédio, só que agora aumentado para três doses diárias).


Mas viver sem eles, quem pode? Em pouco tempo nos tornamos seus amigos para sempre. Só eles nos devolvem a segurança ao desprezarem o perigo num carocinho que surgiu, uma dor aguda, uma tosse severa. Três graus a mais no termômetro já podem ser uma infecção; 18 por 10, no aparelho de pressão, é ,com certeza, a morte já subindo pelo elevador. E vai você pro telefone, desatinado, atrás daquele homem super-homem sem capa que nunca está no hospital, no consultório, em casa, mantendo seu celular eternamente desligado.


Em geral, só consegue falar com a secretária. -Hmm..., mas a agenda está lotada, senhora...em domicílio é impossível, senhora...se puder esperar um pouquinho aqui no consultório... ah, é particular, viu, senhora?.(Rsrsrsrsrsrsrsrs)

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