Tempos Modernos

Tempos Modernos

Sou saudosista, não. Passado, para mim, é como espelho retrovisor, por onde dou uma olhadinha rápida, só para conferir a trilha percorrida. Se meu olhar se detém, perco a concentração na estrada, à minha frente . Mas não me permito ser obcecada em acompanhar todas as reviravoltas da tecnologia.


Quem nasceu até 1960 é uma ”testemunha ocular dos fatos”, como aquele antigo jornal da tevê. Nossa geração viu tudo se transformar , com exceção do guarda-chuva. Do fogão 'a lenha ao microondas, do papelão ao sintético, do rádio com válvulas à televisão em 3D, do avião com hélices ao foguete, da caneta-tinteiro ao computador.


Até aquela época, não ter um brinquedo da moda era normal. Se você fosse o mais pobre da turma e ainda não possuísse uma bicicleta, bastava se encontrar com aquele amigo rico que sempre o convidava para brincar. Sentado no meio-fio , você esperava por horas até que ele perguntasse, cansado de pedalar: - Quer pegar, agora? O céu se abria à sua frente. No selim da bicicleta, você se exibia para as garotas do bairro, subindo e descendo a rua, dando cavalos de pau, freando com barulho. Nenhuma inveja ou sofrimento por não possuir o que gostava. Simplesmente esperava o próximo Natal, que poderia colocar seu sonho no sapato.


Até meus seis anos, havia apenas um rádio em minha casa - enorme, de madeira, com uma seda bege tampando o alto-falante. Era tão importante que ocupava lugar de destaque no quarto dos meus pais. E acontecia em quase todas as casas. Nos dias de tempo firme, sintonizávamos as emissoras AM, com programas variadíssimos, que iam desde as corridas de cavalos do Hipódromo da Gávea até os humorísticos da antiga Rádio Nacional , passando pelas rádios Tamoio, Tupi, Mayrink Veiga, Globo e Eldorado. Dependendo da antena, era fácil escutar a BBC, em ondas curtas, diretamente de Londres. Acertávamos as horas pela Rádio Relógio Federal, que emitia uma espécie de apito, de minuto em minuto.


Hoje penso como foi grande a contribuição do rádio para a criatividade, em nossa infância: éramos obrigados a construir imagens para que as coisas que ouvíssemos fizessem sentido. Nas tardes das transmissões no Jóquei Clube, eu imaginava as mulheres com seus chapéus floridos, seus perfumes franceses, luvas, peles nas golas. Na apresentação de um programa de calouros, tentava adivinhar se aquela voz advinha de uma pessoa magra, gorda, branca, negra, morena, loura. Nosso rádio jamais se desligava, mas não podíamos manuseá-lo sem autorização. E achávamos normal essa proibição, obedecíamos sem rebeldia alguma.
Foi a partir de 50 que apareceram as primeiras televisões . E como sempre surgem todas as novidades, eram imensas, caríssimas, coisa de gente rica, quase impossíveis de serem adquiridas por uma família de classe média. Lembre-se de que, na época, não existiam crediários, cartões de crédito ou carnês.


Fui vendo surgir todos os eletrodomésticos, durante minha infância. E eram recebidos com deslumbramento. A enceradeira foi a primeira novidade da casa, fazendo com que mamãe ficasse tão feliz como se houvesse ganhado uma jóia. Livre do escovão - aquela geringonça pesadíssima que exigia a força de um estivador - a limpeza do piso passou a ser mais leve e (quase) prazerosa. Vieram, depois, o fogão elétrico e o aquecedor, já que ao ser retirado o fogo à lenha, foi-se a serpentina, responsável pela manutenção da água quente .


Mas a chegada da geladeira em nossa casa foi um acontecimento hilário. Avisadas por meu pai de que havia comprado um refrigerador, logo pensamos em fazer nossos próprios sorvetes, minha irmã e eu. Mal a caminhonete parou à nossa porta, já queríamos dar início à nossa fabricação de picolés. Resolvemos pelo sabor Toddy com leite. O técnico, que veio explicar à minha mãe como funcionava a geladeira - coisa dificílima: um botão que poderia ser girado para o Mínimo, Médio ou Máximo; posto no Zero estava desligada- aconselhou meu pai a só colocar alguma coisa em seu interior 24 horas depois de ser ligada. Ai, que sofrimento! Passamos o dia cuidando o cuco da parede, abrindo e fechando a geladeira, até que se passou aquele tempo infinito e pudemos encher as forminhas de gelo com nossa mistura e colocar no meio de cada quadradinho um palito. Conferimos tantas vezes o congelamento, escancarando a porta minúscula do congelador , que precisou de quase um dia inteiro para que aquele caldo endurecesse. ... Hoje tomo os sorvetes mais sofisticados, em taças de prata e de cristal...e nenhum tem o sabor daquele quadradinho que fizemos em nossa geladeira. Gosto de encantamento.


Depois disso, as invenções se sucederam , aceleradamente. O radinho de pilha, o telefone sem fio, a televisão em cores, o fax, o telex, o celular, o walk-man, o computador e o notebook, as câmeras sem filmes, o microondas, o controle remoto, os jogos eletrônicos,agora os smartphones... mas nunca mais pude notar nos olhos de uma criança aquela felicidade, como a que sentíamos ao ganhar um jogo de varetas. Hoje se pode tudo, sem espera, é tudo muito fácil, com carnês que dividem em 12 vezes. Para atender às exigências dos pirralhos, pais se desdobram em horas extras, se preciso. Não dar a eles o último lançamento eletrônico pode causar traumas irreversíveis. Não ter é humilhante.


Para nós, coroas, o mundo começa a parecer fora de esquadro, todos digitando o tempo inteiro - à mesa, dentro do carro, na escola, no banheiro, enquanto caminham - os celulares que não param de tocar, as mensagens que urgem ser respondidas. Para poder dizer alguma coisa temos que pedir licença: não gostam de retirar os fones dos ouvidos.
Ando achando este mundo moderno mercantilista demais para o meu gosto. A escritora Martha Medeiros ilustrou, com uma piada, a confusão em que anda nosso tempo: “ Tentei acompanhar 2016, mas desisto, vou esperar sair em DVD.”
...Eu, também.


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