Consumista.com

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Já fui consumista. É um vício, da família do TOC, que ataca, geralmente, da adolescência aos cinqüenta anos, fase quando o que importa é exibir a aparência- vitoriosa, elegante, sempre fashion – nessa disputa escancarada que existe entre mulheres que pertencem 'a mesma tribo.


Nos anos 80, repetir roupa era desonroso, sinal de decadência. Em cada evento precisávamos exibir uma nova toalete, com sapatos, acessórios, esmalte de unhas e cabelo apropriados para o modelito. Tudo combinado, com rigor. Ao comprarmos uma bolsa, chegávamos à porta da loja para verificar se o tom era idêntico ao do sapato – se não, desistíamos da compra. Gastávamos muito com isso, é verdade, mas nada era caro demais para pensar, depois, que tínhamos conseguido ser a mais linda da festa...(Todas achavam isto.)


Chega uma hora, porém, que esse desfile cansa. Raras são as mulheres que continuam a frequentar e a manter uma agenda frenética até a velhice. Tenho uma amiga que ainda é arroz de festa. Vai a baladas, concertos, lançamento de moda, vernissages, todos os casamentos a que é convidada, churrascos, feijoadas, missas de sétimo dia, bailes de formatura, festas de 15 anos. E continua trocando de roupa compulsivamente, todas horrorosas. Mas é feliz assim, e muito mais agora, já que passou a não depender de colunistas para ter sua foto divulgada. Ela mesma publica, numas fazendo bico, noutras, rindo, segurando o cachorro,séria, copo na mão, dançando... E avisa que existem mais 45 para abrir. Valha-me Deus.


Muitas são as razões que provocam a saída do palco de mulheres após a quinta década: os ambientes, que passam a nos parecer muito joviais; as músicas, que são totalmente o oposto do que gostamos de ouvir; a barulhada que impede uma conversação agradável . Se nada disso é motivo, corpo maduro quer descanso, com direito a almofadinha sob os pés e apoio para a cabeça. A partir dos cinqüenta começamos a gostar demais de nossa casa.
Frequentar os mesmos ambientes, como dever social, é um enfado só: já sabemos direitinho quem estará por lá, nos esperando: aquele amigo que só fala em seus cavalos , o outro, que sempre exibe as fotos da última viagem, o coroa, que paquera todas as mulheres que estão presentes, sem sucesso,a periguete, que sempre bebe demais e dança sozinha...a plateia não muda. As conversas tambémsão sempre as mesmas, porque cada pessoa tem seu tema preferido e se esquece do que já nos contou, no mês passado. Total dèja-vu.


Eu aplicava meus golpes para sair depressa, tão logo o primeiro pinguço começava a trocar R por L. – Miliam, vc ainda tlabalha no jolnal???? - Ih, dizia franzindo a testa e olhando meu relógio - e não é que vc me lembrou que estou atrasadíssima para fazer uma entrevista? E usava, também, o truque do telefonema: fazia tocar meu telefone, atendia, e dizia:- Ah, obrigada, estou indo depressa. E fui comparecendo, apenas, ao início de festas e recepções, abandonando o dever de soprar velas de bolo.


Mas chega o dia em que você não quer mais ir, nem pro primeiro tempo; restringe suas saídas 'aquilo que lhe dá real prazer. Termina aí sua obrigatoriedade de desfilar a coleção outono-inverno e ter seus pés literalmente prensados dentro de um bico fino de um sapato com salto agulha. Enfim, ufa!, seu jeans molinho de tanto uso, aquela blusa adorada, um pouquinho curta, sua sandália rasteira, deliciosa, podem voltar ao uso quase todo dia. Porque depois de três ou quatro convites recusados, em geral, ninguém convida mais.


E eu estava feliz com essa fase de total liberdade pessoal, descansando de minhas compras de roupas e sapatos, quando a modernidade me traz a Internet. Adoro novidades, assim, fui das primeiras que adquiriram um computador, depois um celular, depois um tablet, quando intuí que a comunicação nunca mais seria como antes e que papel e caneta serviriam, tão somente, para assinar nosso nome nas notas promissórias.


No início, usava o computador apenas para o meu trabalho, mas logo depois surgiram as redes sociais. A publicidade invadiu minha caixa de mensagens e eu, devagarzinho, comecei a gostar de passear pelo comércio sem precisar sair de casa e retirar a rasteirinha. Passei a me interessar pelos canais de venda, que eram apenas dois, no início. Logo depois explodiram os sites na Internet. Tá bem, eu não me interessava mais em comprar aquele contêiner de roupas, mas, olha só, essas ofertas para o lar... baratíssimas... hmmmm, que podem ser trocadas...! E eu clicava em tudo o que gostava. (Acrescentar no carrinho, acrescentar no carrinho...).


Foi assim que adquiri quatro faqueiros ( com cabos de bambu, com filetes dourados, com talheres para peixe, próprios para churrasco, para pizza), cinco edredons, panelas de cerâmica, sorveteira, maquiagem importada, escova rotativa, prancha, bijuterias , champanheira, vinho chileno, travesseiros de pena de ganso, o escambau. E viciei, novamente, na compra compulsiva. A cada novo pedido, eu repetia: é minha última compra! Última compra!


Mas “eles” me descobriram. Daí... não pude entrar mais um minuto, sequer, no Facebook. Se começo a ler um texto interessante, sou interrompida por uma janela pisca-pisca que me pergunta:” Miriam, por que você sumiu? Temos sentido sua falta”...”“Miriam, sua compra ficou sem concluir, volte ao carrinho”. “ Só para você, Miriam, desconto de 20% HOJE, na mercadoria já escolhida...”. “A bota que você procurou acaba de chegar, reservamos uma para vc, Miriam !” “Clique aqui e veja o seu perfume em promoção!” Os espertinhos deixam meus dados cadastrais arrumadinhos, basta eu clicar COMPRAR e meu pedido é fechado, vindo, em seguida, os cumprimentos da empresa:

“Parabéns! Você acaba de adquirir a melhor batedeira do Brasil!”


Estou ficando louca. Nem mesmo responder às minhas mensagens eu consigo,:à esquerda, à direita, aparece a bolsa que eu apenas olhei, por curiosidade, há vinte dias. “ Seu crédito foi aprovado, vc pode comprar esta linda bolsa, agora em 12 vezes!”


Deixei de clicar em sites de vendas. Houve dia em que todos eles resolveram responder às minhas espiadas: uma explosão de janelas se abriram e até filhote de cachorro apareceu num cesto, com um laço enorme ao pescoço, e o recado: “ Ele quer morar com você, Miriam. Clique ao lado e peça seu bichinho vermifugado, vacinado, com pedigree. Enviamos a ração para o primeiro mês, um protetor de sofá, dois potes plásticos para ração e a água, um lindo cesto de vime, instruções de cuidados, sabão próprio para filhotes.”


Ai, ando estressada demais! Não perceberam, até hoje, que não quero mais adquirir coisa alguma. São bons demais para a venda virtual, mas eu sou melhor ainda para resistir àquilo que não quero. E fica esse cesto de vime aqui do lado, com o filhote de Yorkshire latindo , sem parar. Mas foi minha última compra, viu? Última compra!

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