Povinho exigente!

Povinho exigente!

Já somos 204 milhões de brasileiros, garante o IBGE. Imagine, então, quantas cabeças pensantes e outras, definitivamente sem pensar, dando palpite em tudo o que acontece, o tempo todo. Por que será que temos a mania de sempre opinar sobre todas as coisas que vemos? E, pior: não só achamos que deveria ser assim ou assado – temos certeza!


Lembrei-me, agora, de meu pai. Era uma pessoa influenciável, sempre aberto à opinião dos amigos e, por isso, sofreu bastante, vida afora. Como adorava ter um pedreiro em casa, eram frequentes as reformas ( em geral, sem nenhuma necessidade) e, certa vez resolveu modificar a entrada da nossa casa, que tinha dois portões. Mal a carroça despejou o primeiro saco de areia no passeio, surge o vizinho, como quem não quer nada, enrolando um cigarro de palha.: -Reformando? Meu pai explicou: -É, vou retirar uma das entradas e colocar o portão do lado esquerdo. -DO LADO ESQUERDO?- parou de enrolar o cigarro. - Não faça isso! Vai acabar com a fachada! O ideal é colocar o portão do lado direito , muito mais estético!- -É que do lado esquerdo tenho espaço para fazer uma garagem, –replicou papai. – Mas você nem tem carro! Garagem pra quê? Olha, escuta a minha sugestão, já trabalhei em obras por mais de dez anos.” Acho que aquilo deixou meu pai indeciso, a tarde inteira. Pensou e repensou... abriu a entrada do lado direito.


Anos depois, papai resolveu comprar um carro. E precisou passar o portão para o lado esquerdo, onde queria tê-lo colocado. Refeita a entrada e a garagem pronta, foi aguçada a curiosidade da rua inteira. - Garagem? – quis saber o magrela que morava nos fundos de um sobrado - Vai comprar carro? – É..., me ofereceram um Citroen usado, bem novinho, achei que é boa essa oportunidade. – -Citroen? Citroen? – perguntou o amigo, esbugalhando os olhos – Tá procurando problema, homem? Um cunhado comprou e agora está quebrado! Mecânica caríssima, bebe feito pinguço, não existem peças, se precisar de conserto. Vai comprar um problema! Vai comprar um problema!”


Meu pai, sem conhecer coisíssima alguma sobre carros e marcas, sentiu cair sobre seu sonho um balde de água fria. Comentou com mamãe, que entendia menos - se isto fosse possível- e ela se preocupou com o comentário. Dali em diante, amedrontado com os gastos gigantescos que teria, meu pai foi desistindo aos poucos de adquirir o carro, até desfazer a promessa de compra com o vendedor.


Durante os dez anos seguintes, viu o Citroen passar, robusto e ágil, vendido para um coronel, seu conhecido, que retirava uma das mãos do volante para cumprimentá-lo, com uma espécie de continência, e carregava a família toda com os cotovelos pra fora das quatro janelas. Não sei quantas vezes ouvi mamãe e ele se lamentando por terem perdido aquela compra.


Ora... se é assim com tudo o que as pessoas vêem, por que não seria igual na abertura da Olimpíada? Sentados em seus sofás, pelo Brasil inteiro, milhões de especialistas em droga nenhuma, analisam, baseados em sua larga experiência de coisa alguma, os erros e acertos de um evento que, se não foi o mais original e arrebatador deste país, igualou-se às aberturas das Olimpíadas de primeiro mundo.


O Brasil entrou em estado de graça na noite do evento. Mas quando o povo desliga a tevê, às vezes, pensa. E é “pensar que estraga todas as coisas”, dizia Millôr Fernandes. Dia seguinte, cedo, abro meu Facebook. Uma pessoa, em português sofrível, detona a abertura da festa: ...Como é que pode? Nosso ino tocado em rítimo de samba e si não fose o povo que cantou, tinha ficado sem nenhuma espressão. Pessima idéia, violão é coisa pra bossa nova, nota zero para a idéia moderninha .


Puxa, desse pormenor eu também não tinha gostado. E até concordei com o comentário. Mas, logo abaixo, outro crítico abalizadíssimo comenta:... KKKKKK, puseram um Gilberto Gil todo inchado, um Caetano com voz de moribundo e uma sambista que não samba. Que droga de show foi aquele? E mais outro: ...Paulinho da Viola e Elza Soares estavam fazendo o quê, ali? Melhor seria Roberto Carlos, Maria Rita, que são conhecidos no exterior e famosos no Brasil.


Agora, um engenheiro que se dispôs a comentar o evento:...Bactérias que deram origem aos índios e aos asiáticos? Era o começo do mundo ou do Brasil? E os italianos, sumiram da nossa história? Nenhuma menção aos alemães, que desenvolveram São Paulo e a cultura do café? Gisele, como a garota de Ipanema? Loura, de olhos claros, bem europeia, que em nada lembra a morenice brasileira? Ô loco!


Fui descendo os comentários. Entremeando dezenas de elogios, continuam as mordidas dos palpiteiros:...Brasileiro é mesmo muito deslumbrado, uns elásticos e uns tecidos do Saara, uma dúzia de caixas de papelão e se desmancha defronte da televisão. E também leio:...Pelamô, quem é que estava cantando a Aquarela do Brasil? Minha avó apostou que era um tal de Chico Alves, alguém conhece? Falta de gosto!


Muitos outros críticos apontavam “as falhas” : ...Nem se lembraram do Niemayer? Do Burle Max?” ...Péssima idéia colocar Zé Pagodinho! ...Achei horrível as músicas escolhidas para a abertura ...Por que não mostraram o hasteamento da bandeira, feito pelos militares? ...Não era uma festa com cara do Brasil, quiseram mostrar que dominam a mesma tecnologia usada nos países mais desenvolvidos...macacos de imitação...


Fechei meu tablet, indignada, triste. Nada agrada o coração do brasileiro? Em meio à explosão de cores, criatividade e estupenda criação artística, as pessoas sempre se apegam a pormenores, desprezando o todo ? Em vez de elogiar , o nosso velho vício: sempre apontar os erros. Olhos fechados para tudo o que há de bom , será essa a tendência maior dos brasileiros?
Desanimador... Haja perseverança, haja resiliência, para não desistir da Arte, neste país.
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