IV Seminário de Bens Culturais da Igreja em Minas e Espírito Santo

IV Seminário de Bens Culturais da Igreja em Minas e Espírito Santo

Com pessoas vidas de várias partes do Brasil, reuniu-se em Vitoria – ES, de 24 a 27 de outubro, o IV Seminário de Bens Culturais da Igreja no Regional Leste 2 da CNBB ( Estados de Minas Gerais e Espírito Santo). Tal evento teve como propósito estudar e melhor conhecer a função dos bens culturais da Igreja, com suas características próprias que superam o conceito apenas museológico ou folclórico. No caso dos bens religiosos, há de se considerar que eles têm uma função espiritual, levando-se em conta a sua relação com as coisas sobrenaturais, segundo a fé professada. Verifique-se,no caso de patrimônio sacro, que antes das sagradas produções artísticas, precede um ato vivencial de valor intangível que impulsiona inexoravelmente a pessoa religiosa à busca do belo e do bom. De fato, é inevitável nãoseparar a crença em Deus e a arte, pois Deus é eternamente belo, o infinitamente bom, é o rosto artístico da misericórdia.


Havendo enorme produção artística e cultural que vem acontecendo há mais de 2000 anos a partir da vida e da pregação de Jesus Cristo,temos à mão um volume enorme de material precioso que necessita de preservação. Ao mesmo tempo, tendo diante de nós uma comunidade atual que continua a produzir arte e prossegue se organizando com arquivos e bibliotecas, estamos sempre desafiados a buscar o que há de mais belo e de melhor para expressar a fé no Filho de Deus Encarnado, “o mais belo entre os filhos dos homens” (Sl 45), como ensina a Sagrada Escritura. Olhando para o futuro, sentimos séria responsabilidade em deixar para os que virão depois de nós instrumentos e meios que continuem divulgando a beleza, a bondade e a misericórdia de Deus que salva o mundo por amor às criaturas.


O amor naturalmente se expressa na arte e na busca do melhor. Quando São Paulo na carta aos Efésios (cfEf 5,21-33) expressa aos fiéis a comparação entre o familiar amor humano e a Igreja, indica, aos casais e aos fiéis, a busca incessante de harmonia e de paz. O amor se expressa em três modalidades, como recordou o Papa Bento XVI na sua Encíclica “Deus caritas est” : O amor Eros – Filia – Ágape. Em qualquer destas expressões, a beleza está presente como o estouro de uma semente que, por menor que seja, produz algo sempre melhor e mais belo do que ela, ou um pouco de fermento que agindo escondido na massa, gera algo melhor, mais útil mais belo do que ele.No amor-eros, ecoam os afetos, os carinhos, até mesmo os mútuos presentes. No amor- filia, se repetem os gestos de amizade sincera, os cumprimentos, a fidelidade. No amor ágape, evidenciam-se o serviço desinteressado, o doar até a própria vida pelo outro.


Feliz coincidência fez iniciaro IV Seminário de Bens Culturais da Igreja com a festa de Santo Antônio de Sant'Ana Galvão, a 25 de outubro, o primeiro santo canonizado, que nasceu, viveu e morreu no Brasil, pois trata-se de um dos maiores religiosos com excelentes dotes da arte e da cultura. Em sua existência de 84 anos, tendo nascido em 1739 e falecido em 1822, foi poeta, literato e cantor. Escreveu ao menos 16 poemas em latim, todos dedicados a Sant'Ana, devoção de sua família. Foi arquiteto, mestre de obras, desenhista e pôs as mãos na massa como pedreiro para construir, durante 18 anos, o sólido e belo edifício do Mosteiro da Luz que está ainda hoje exuberante na região central da cidade de São Paulo. Ali, Frei Galvão está sepultado desde o dia 23 de dezembro de 1822, data de seu falecimento.


Como bom franciscano, nada reservara para si e , compartilhando os dons espirituais que embelezavam a sua alma, fundou, com Madre Helena, o recolhimento Concepcionista, em honra da Imaculada Conceição, para o qual edificou o monumental convento anteriormente referido.Diz-se que três coisas caracterizavam a vida e a personalidade doartístico Frei Galvão: a caridade, a delicadeza e a bondade.


O IV Seminário foi dedicado à memória de Cláudio Pastro, um dos maiores artistas sacros da atualidade, falecido semana passada, aos 19 de outubro. À luz deste gênio da arte litúrgica, buscou-se, no referido Seminário, os melhores critérios para preservar, para produzir e organizar o que há e o que haverá em arquitetura, imaginária, pintura, escultura, mosaicos, vitrais, música, bibliotecas e arquivos que são expressões culturais da fé cristã.


Na construção do Reino de Deus que, da pequenez de uma semente de mostarda ou da humildade de um pouco de fermento, se torna grande e atraente, pretende-seque os bens culturais sejam como verdadeiros sermões que arrebatem gente para Cristo e que ajudem a vivenciar, já aqui na terra, a perfeição do amor do céu, onde tudo será belo e tudo será bom em definitivo, como São Paulo ensinou: “os olhos jamais viram, os ouvidos jamais escutaram, o coroação jamais pressentiu o que Deus preparou para os que o amam”(cf. I Cor 2,9), pois a beleza e a bondade antecipam no tempo o que é perfeito na eternidade.


DOM GIL ANTÔNIO MOREIRA
Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora - MG
Presidente da Comissão para Comunicação e Cultura, da CNBB Regional Leste 2.
Vice- Presidente da Comissão para os Bens Culturais da Igreja – CNBB – Leste 2