A vassoura em ação

A vassoura em ação

Jânio Quadros foi, sem dúvida, uma das figuras mais importantes da vida política do Brasil neste século. Mas, poucos sabem que, antes de ser vereador, deputado estadual, prefeito, governador, deputado federal ou presidente, Jânio da Silva Quadros era professor de Português.


Conta a lenda que um dia, ao chegar para uma aula de Português no tradicional Colégio Dante Alighieri, reduto de ricas famílias paulistanas, o exigente professor Jânio, que não era dos mestres mais populares entre os alunos, entrou na sala e, na primeira olhada em sua mesa, avistou um feixe de capim sobre o tampo. Olhou-o, fingindo não tê-lo percebido, e sentou-se. Passados alguns minutos de pesado silêncio, o professor levantou-se e disse com a maior delicadeza que lhe foi possível: “Vamos fazer a chamada e começar a nossa aula. Antes, solicito ao rapaz que esqueceu a sua merenda sobre a mesa, que venha buscá-la, para que possamos dar início aos nossos trabalhos”.


O ex-presidente Jânio Quadros, além de professor de português, foi escritor, gramático, lexicógrafo (produziu um bom dicionário da língua portuguesa) e especialista em dar ordens por meio de bilhetes. Em sua campanha à presidência, notabilizou-se por aparecer em quadros de TV com uma vassoura, ao som de um jingle: “Varre, varre vassourinha”, que ele dizia ser “para limpar a bandalheira”, mas acabou “fazendo sujeira” ao renunciar à presidência, após sete meses de um confuso governo, devido a “forças terríveis”. Mas o homem era muito letrado - gostava de usar os pronomes - e austero.


Certa vez, antes da posse, em 1961, esteve em visita à redação da Revista Manchete, de que eu era o chefe de reportagem. Vinha de uma volta ao mundo e fez questão de elogiar o padrão gráfico da publicação. Foi nessa ocasião, pela primeira vez, que ouvi a frase célebre: “Presidente, por que a viagem antes da posse?” E ele respondeu: “Fi-lo porque quis!”.
Houve gente que não entendeu. A imprensa, com certa maldade, degenerou a expressão, vulgarizando o “fi-lo porque qui-lo” que, na verdade, o antigo mestre de Português jamais pronunciaria. Jânio tinha especial gosto pelo emprego da próclise, da ênclise e da mesóclise. E o fazia com toda a propriedade. Sua forma de comunicação baseou-se nos famosos “bilhetinhos”. Cada um deles tinha o efeito de uma bomba, pois mexia nas estruturas, perturbando os corruptos. Foi uma forma peculiar de fazer história.


No livro “Jânio Quadros, a vassoura em ação” (Editora Prismas, 2016), o autor Nelson Valente conseguiu recolher o mais importante repositório das manifestações do grande político, resultando numa obra histórica, de méritos indiscutíveis.